Eu e Saulo passamos muito tempo sem nos vermos e nesse inteirim nossos diálogos resumiram-se à convenções: falávamos sobre eventos, trabalhos, clima... Inclusive me pediu para ver se eu conseguia alguma coisa para ele e eu esqueci. Detesto quando isso acontece: Até a semana passada tinha um processo seletivo externo acontecendo e eu não o indiquei. Mas enfim, não acredito que ele fosse passar sem uma especialização mesmo. Saulo nunca se direcionou à nada que fosse prático e sempre desacreditou de seus talentos artísticos - se ao menos tivesse alguma experiência em escritório...
Nos conhecemos no segundo grau graças à um cd (sim, ainda usava-se isso) que ele esqueceu na sala no segundo dia de aula: Siamese Dream, dos Pumpkins - não me esqueço desse dia. Eu fiquei ouvindo em casa e lembro de ter achado a voz do Billy Corgan detestável, mas gravei em uma fita (sim, isso também) assim mesmo e devolvi no dia seguinte. Passei a sentar no fundo da sala desde então. Foi um ano muito bom, aprendi muito sobre arte, música e um pouco de filosofia com ele. Se me interessei pelas humanas e me encontrei nelas foi graças a esse cara, pois quando comecei o segundo grau meu objetivo era fazer física ou química. Como a vida dá voltas... As pessoas são muito importantes nas nossas decisões, mas não como ele vê, ele as supervaloriza e acho que ninguém merece tamanho apreço ou confiança, e não estou me destacando como uma excessão por estar falando isso: nem mesmo eu mereço a confiança que ele deposita em mim.
Hoje eu tinha alguma esperança em me divertir e encontrei com ele, depois de tanto tempo, com esse intuito: "Então, vamos ver como anda aquele cabeludo." Mas não... Ele não parece ter mudado muito. Permaneceu com as mesmas questões só que referentes à pessoas diferentes. Como ele mesmo me disse: "Somos o nosso eterno retorno", se não me engano, mas isso não me tira a alegria em vê-lo. Só espero ser útil o mais rápido possível para cortar essa sessão de análise e partirmos para outra coisa que nos faça esquecer os motivos das reclamações. Depois de hoje acho que vou ficar mais um bom tempo sem vê-lo para não desgastar nossa amizade.