26.3.10

1 - Lino

- Ter a memória ruim alivia a intensidade e a durabilidade de sentimentos intensos, tanto ruins quanto bons. Ajuda, atrapalha... Mas não ajuda a aprender a esquecer. E sempre volta, forte, torcendo, dando vômito, pesando os olhos de uma coisa que não é lágrima, que é só peso: uma ansiedade que me ata. Se fosse das que me atam em mim, ótimo, eu não pensaria em ninguém que devesse me ajudar, mas é das que atam as minhas capacidades de ser nas de alguém, e o outro sabe disso pois deve sentir o mesmo.
   Sabe "mal-entendido", Lino? Sabe a paz que já não há se esvaindo e deslizando por um córrego de esperanças que nem podem exercer sua natureza, sua existência, de esperança? E por sua causa e consequentemente de outro! O mal-entendido só há devido a uma predisposição de alguém ou algo em não entender ou simplesmente não haver uma vez que só os três elementos básicos da comunicação estão envolvidos aí. Então o algo é o que se diz, que não veio à luz e os alguéns somos eu e ela, que não tentamos. Ela por não querer e eu por não gostar de forçar uma situação desse tipo, que só traria tristeza à ela, tirando-a da confortável ilusão do "bem-entendido".
   Eu vivo como se soubesse, sem saber (apenas querendo), e ela também, mas sem querer saber. Entende como me ata? E não vou forçá-la como nunca forcei, a não ser em momentos de paixão cega e empolgação, como quando ela dizia que estava doendo e eu entrava mais para saber se a dor passaria. Porque no início tudo pode vir a doer, não é?

Dói-se até para nascer.
Dói-se de ar nos pulmões.
Dói-se da possibilidade de ser.
Dói-se de estar vivo.

   Por que você não diz nada?



- Porque você não a tem para te ouvir, Saulo.

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