3.11.09

Pensar numericamente é fácil.

Quando penso minhas letras lembro de Grandaddy, Björk, Radiohead... O que faz essas pessoas conseguirem, com letras aparentemente fracas, terem uma música tão atraente?
    Esses dias têm sido felizes graças à Jac, e por consequência à Paulinha que me apresentou uma família muito doce de se conviver. Espero muito estar fazendo novos amigos. Venho reconhecendo, cada vez mais, a importância de se cultivar relacionamentos saudáveis, por mais que minha definição de amigo não interfira na da pessoa saudável.
    Nesse processo de conhecer pessoas novas tenho me percebido bem cauteloso, no início quase hesitante por motivos óbvios. Vim do relacionamento de mais impacto que tive até agora e naturalmente mantive distância das grandes possibilidades de apego. Eu pensava que a próxima pessoa que se envolvesse comigo seguraria uma enorme carga negativa, pois, como péssimo homem bomba que sou, quando explodo atinjo a todos, menos a mim mesmo.
    Esses tempos novos têm me mostrando que o processo mudou. Acabei implodindo mesmo, como tanto temi durante o correr das coisas. Agora que percebi isso e que aquele sofrimento desregulado passou, valorizo as rugas recém adquiridas no processo. Vejo a Jac tentando lidar com a criação das rugas dela e admiro nossa compatibilidade. Salvo meus desabafos, claro, mas sem reprimi-los. Apenas aplico as conclusões que tiro em meus momentos de introspecção. Uso palavras apaziguadoras, conselhos... Não. Tenho evitado conselhos. Uso mais a segurança em rumos de conversa que mais se assemelham com “vai passar”, “vamos ver como isso se dará” ou mesmo “sei que é incrivelmente ruim, mas é possível sobreviver a isso. Até eu consegui!”. Mas a minha relação preferida continua sendo com “vamos lidar com isso juntos”. É por essa razão que dei chance para a cumplicidade que havia entre nós dois. As semelhanças entre nossos temperamentos não são poucas também... Quanto à cumplicidade não sei bem, mas ao que me parece isso é fácil de se obter com alguém que fala pelos cotovelos. Apesar disso Jac é uma ouvinte atenta, o que me surpreendeu nos primeiros dias e foi uma característica conclusiva para que eu decidisse levar nosso relacionamento a sério. Essa habilidade me permitiu ver seu amadurecimento uma vez que, claramente, não é algo inerente à ela, mas algo desenvolvido. Falar bastante é melhor que não falar, definitivamente, e saber ouvir é coisa para poucos.
    Voltando:
    Minhas músicas são muito pessoais. Isso seria perfeito se eu tivesse nascido falando inglês. Acho que mesmo se eu tivesse total domínio sobre esse idioma simplório não conseguiria a colocação que conquistei lutando contra o português e suas palavras gigantes cheias de consoantes estaladas. Se o português tivesse sido inventado por uma só pessoa eu diria que as capacidades cognitivas dela são duvidosas. Por outro lado penso nos franceses e me sinto com sorte, pelo menos na minha língua é possível variar facilmente entre nuances emocionais.
    Existem dois problemas. Um, que se resolve por etapas, com leitura, tentativas frustradas e vocalizações catárticas, é a manipulação da sonoridade do idioma, que basicamente consiste em batucar com as consoantes e construir melodias vocálicas adequadas tanto à essa percussão quanto ao que vou chamar de microestados da frase musical. É dentro desses microestados que a emoção começa a ser utilizada como meio quase direto de comunicação, só não a considero de todo por causa da “interferência” da voz.
    A percussão é complicada.
    Claramente, quando se reduz a quantidade de consoantes da letra torna-se mais melódica, arrisco dizer que é por causa da semelhança com a primeira fase do aprendizado do idioma. Repetir demais a mesma consoante faz com que o verso fique imbecil, passar muito tempo sem repetir faz com que não pareça uma letra de música e por aí vai.
    O outro problema é o público. As pessoas me parecem secas e isso vale tanto pras bandas que saem dos públicos umas das outras, quanto para o ouvinte puro, que não é músico. Isso faz com que surjam artistas focados puramente no que os ouvintes querem e na música alternativa isso é um mistério, tamanha possibilidade de temas diferentes que existem, do dadaísmo ao amor.
    A conclusão que tirei disso é que o que nos salva não é o quê, mas como se fala. Letras muito pessoais só funcionam quando atingem um grande público de cara, o que não é o caso. Quando elas conseguem fazer isso passam uma peneira sobre aquele público recolhendo aquilo que mais se parece com fiéis fervorosos do que fãs.
    Letras impessoais têm o potencial para dominar o mundo, principalmente o das pessoas que não se importam com a qualidade artística das músicas. Compositores alternativos brasileiros vivem este dilema: Não podem dominar massas com sua sonoridade pois é raro ter ou gostar de letras impessoais, por terem a musicalidade formada pelos que falam inglês, e sentem-se travados para fazer letras pessoais, pois de um público pequeno não se tira seguidores suficientes.
    Eu percebi que mulheres possuem um entendimento das minhas músicas que homens raramente têm, por isso tenho pensado sempre em amigas quando sinto falta de algo mais nas músicas. É muito mais fácil uma pessoa com sensibilidade artística feminina interferir nelas por isso, elas costumam fazê-lo da maneira que aprecio: em prol de um todo harmônico.
    Voltando às amizades há o Jenner que, apesar de ter demonstrado gostar das músicas, tem andado meio distante aumentando minha ânsia em começar logo isso.
    Estou cansado das coisas que não andam e não quero acreditar no meu mapa astral(hahahahaha) que prevê esse tipo de dificuldade como um karma. Sinto-me preparado para fazer a música que quero, tenho uma estética, tanto visual quanto sonora, na cabeça que precisa ser colocada para fora, mas que depende de outras pessoas e a única coisa que eu queria que essas pessoas tivessem são confiança e gosto pela músicas.
    Se ao menos elas dissessem aonde estou errando, se é que estou...

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