25.1.09

"NÃO QUERO MORRER!"

Aos trinta anos pensava ainda em conseguir algo advindo de um sonho ou risível desejo qualquer. Não era de muitos caprichos a não ser no que tangia a seu conforto físico. Morava só e era de poucos amigos, o melhor deles era um Basset Hound chamado Cole com quem possuía um relacionamento de grandes oscilações. Cole era temperamental e instável emocionalmente o que acabava exigindo demais de seu amigo humano, principalmente em seus surtos de euforia.
Já havia pensado em suicídio diversas vezes, em sua maioria na adolescência, e brincava dizendo que acabava sempre insistindo em ver algo de bom em alguma coisa que perderia com isso: pessoas, planos de viagens, Cole, alguma série televisiva ou conclusão de uma trilogia de ficção. Mas recentemente, a petrificação da rotina, a insatisfação financeira aliadas ao seu apego por detalhes fez com que a incapacidade auto-imposta de resolver sua vida bradasse um canto subjugador. Calculou o tempo e viu que precisara manter-se em seu odiado emprego por mais dez anos para pagar as contas normais, a salgada mesada das quais seus pais precisam por não saberem administrar seus ganhos e gastos e a dívida quadruplicada por juros de um parcelamento inevitável com o banco.
Confrontando-se com a tela esverdeada e cataléptica de seu computador escreveu com fonte gigante "NÃO QUERO MORRER!" e imprimiu em vermelho. Foi à papelaria solicitar sessenta e seis cópias em preto e branco, sorrindo para a atendente de ascendência oriental e semblante solidamente espantado. Chegando em casa espalhou-as por gavetas, armários, debaixo dos sofás, atrás das televisões e vasos sanitário.
O desconforto havia passado quando terminou.
Aproximadamente um ano depois, e meses após o enterro de Cole, o acometeu nova crise. Entrou no banheiro e ligou o gás. O ar entorpecente o deitou no gelado chão de azulejos brancos em cujos limites entre uns e outros já não eram perceptíveis. Estava ao lado do vaso sanitário onde vomitara por uma hora e vinte e quatro minutos durante a insone madrugada. Encontrou, atrás do vaso sanitário, um papel dobrado que abriu lentamente forçando seus tendões. Já não se lembrava do que era até que os dizeres "NÃO QUERO MORRER!" em vermelho ofuscaram sua visão. As letras tomavam a folha inteira e o tipo de fonte permitia que pouquíssimos espaços em branco aparecessem. A sobreposição da cor vermelha sobre a branca, tanto do papel quanto do chão fazia com que uma aura verde se destacasse entorno e por dentro do papel. O Vermelho Saltava. Tais características faziam com que tal folha em tal momento se diferenciasse, não só de suas irmãs em preto e branco mas de todos os dizeres escritos em qualquer superfície que fosse. Era uma visão sobrenatural, independente até mesmo de quem a criou pois não tivera tal intenção. Ele a havia criado mas não soprado vida, ela a conseguira por si mesma. Ainda por cima a folha possuía a voz ensurdecedora dos dizeres para ele naquele momento... Rasgou-a.

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