Acabei de ter o melhor sonho da minha vida. Ele foi muito real, daqueles sonhos que te deixam decepcionado com o acordar:
Era uma casa bem arejada, com quintal, onde eu precisava fazer algum tipo de serviço para a mãe dela, que, por acaso, havia conhecido a minha e precisava disso. o serviço não aparecia, mas no sonho eu o executava bem, meio que já tinha feito. Envolvia fios de telefone, computador...
Ela estava na cozinha, era depois do almoço e ela lavava uns pratos. Havia uma janela sobre a pia por onde ela olhava enquanto fazia isso, olhava tensa, e eu sentia que era por causa da minha presença. Não queria olhar pra mim e olhava para o sol lá fora. Eu só a via lá, com suas costas de pessoa alta.
No início do sonho minha mãe estava na casa, assim como a dela, que em determinado momento entrou na cozinha com muitos cães com os quais em brinquei. Eram 5 ou 6, cada qual de um tamanho, uma cor e um temperamento.
Em um telefone preto, dos antigos, que ficava no corredor, terminei de fazer o que tinha que fazer, porém algo ainda faltava: uma informação necessária para que o trabalho estivesse de todo completo. Já muitas vezes a havia visto, lá de costas e em alguns outros lugares por aquela parte da casa, e sentido que ela me via, mas sempre estávamos de costas um para o outro. Fazíamos questão disso. Tínhamos medo e repulsa um pelo outro e sabíamos disso. Sabíamos também que em algum momento seria inevitável que nos olhássemos. Eu precisava de alguma coisa, daquela informação, mas não havia mais ninguém ao meu alcance na casa se não ela, a irmã estava trabalhando, a mãe ocupada no quintal e a minha mãe, que ainda estava na casa, não poderia colaborar com o que eu precisava.
O corredor onde eu olhava para o telefone, pensando no que fazer para não ter que falar com ela e pedir a informação, era estreito. E eu fiquei ali, tentando tomar coragem e engolir a repulsa para não soar trêmulo, inseguro, quando fosse tentar falar com ela e, em dado momento, me virei em direção à cozinha. O corredor tinha varias portas e a cozinha ficava ao final dele, era o único cômodo para o qual ele se dava sem porta, assim como a sala na outra extremidade. Eu conhecia a casa muito bem... Ela saiu do quarto em direção à sala e eu do telefone em direção à cozinha quando nos olhamos da mesma maneira que se deu na rua das flores... Mas eu tinha o que falar! e parei dando a entender isso. Apontei para o telefone, abri a boca para dizer algo que não saiu e ela estancou, me olhando com aqueles olhos de sanpaku, os quais eu não ousava fitar. Até que percebi que não queria falar sobre nada, mas apenas olhar pra eles.
Marejaram-se os meus quando fiz isso, assim como os dela. E o pensamento foi o da inutilidade das emoções anteriores... Assistimos imóveis a repulsa ir embora e descer pelas nossas faces transmutadas em água e sal, pois estávamos cansados da guerra e nos achávamos infantis mantendo-a. Ela se moveu e nos abraçamos. Eu encaixei o rosto entre o ombro e o pescoço altos dela em gesto de arrependimento e ela me apertou, aceitando meu pedido de perdão, adequando a angulação do pescoço ao da minha face.
Preocupei-me em não encostar a pélvis nela por medo de ser mal interpretado. Dei um abraço muito empenado devido a isso. Era como se eu tivesse abraçando a pessoa que eu mais devesse respeitar de todas. Ela entendeu e, se locomovendo pra frente me pôs em postura ereta, e eu finalmente relaxei a coluna no abraço. Não precisamos falar muita coisa, apenas sobre o telefone, quando isso terminou.
Fomos à cozinha testar alguma coisa com fios, algum aparelho, e a mãe dela viu que tínhamos feito as pazes. Minha mãe havia ligado há pouco tempo, ela já estava em outro lugar, dizendo que havia algum evento de que eu gostaria acontecendo em algum lugar, alguma coisa que tinha a ver com música e instrumentos musicais. Ela foi se vestir enquanto eu enrolava os fios e guardava as ferramentas, pois adorou a ideia de irmos. A mãe dela percebeu que estávamos bem e não esboçou reação. Era como se não soubesse da gravidade do que havia acontecido, nem antes e nem agora. A minha sabia e me disse para eu não fazer merda, mas que merda eu poderia fazer?
Antes de sairmos, falamos sobre a irmã dela, pois ela seria uma ótima companhia para o programa, mas concordamos que ela não veria com bons olhos a nossa amizade hoje, uma vez que sequer sabia que eu estava lá na casa delas e não me via há muito tempo, e ela deixou para contar quando achasse mais oportuno. Ela me desbloqueou do Facebook e assistimos uns clipes antes de sair.
Fomos andando pois o local não era longe. Haviam duas filas com roletas ao fim, na fachada de um prédio de arquitetura bem contemporânea, daqueles cheios de blocos grandes e muito vidro. Do lado de fora era possível ver tudo o que se passava do lado de dentro, não havia pintura e a alvenaria era cinza mesmo. Ela foi naturalmente para uma fila diferente da que eu escolhi, como se assim pudéssemos entrar mais rápido. A vez dela chegou antes da minha e ela me sinalizou para que eu fosse para lá, mas eu não achei correto com as pessoas que estavam atrás dela e preferi aguardar. Ela cansou de esperar do lado de dentro e foi comprar algo pra beber.
Quando entrei, o L., estava lá, e precisando
de muita atenção. Pareceu interessado nela enquanto eu contava o que havia se passado. Contextualizado, ele viu que não seria adequado tentar nada, ou pelo menos tentou fingir que sim.
Ela voltou, todos se cumprimentaram e fomos ver as coisas. Em uma nova fila, que dava uma volta pelo lado de fora de uma das laterais do prédio, vimos enormes guitarras que formavam um toldo. Sobre nós estava uma Danelectro 56 preta ou vinho. Vimos muitas coisas e ouvimos e conversamos e o Louis se engraçou... Em um determinado momento recebi um selinho que ela deu como se me zombasse, logo após eu dizer algo divertido. Louis parou de se engraçar aí e começou a se sentir excluído, então dediquei mais atenção para ele.
Em alguma hora entrei em uma porta pensando que era um banheiro, mas dei em um escritório. A porta possuía um mecanismo estranho em que uma grade se transformava em uma escada e ficava à borda de uma piscina, à sua frente um espaço muito estreito entre ela e a água. Lá dentro haviam umas pessoas simpáticas que estavam em um momento de chill do trabalho. Ela entrou quando eu estava saindo e eu voltei. Mexemos nas coisas deles e comemos chocolates, que um dos funcionários ofereceu, encantando com o jeito ao mesmo tempo tímido e serelepe dela. Saímos de lá e eu fui ao banheiro de verdade. E foi aí que o ato de fazer xixi me acordou.
Ah! Enquanto explorávamos o escritório, que tinha várias divisórias, meu tio apareceu e ficava querendo conversar comigo, mas eu não queria dar atenção para não perder o meu tempo de contato com ela. Fiz muito bem.
Este foi o melhor sonho da minha vida porque dentro dele eu era compreendido e aceito. Tão compreendido que a timidez participava quase que o tempo todo, em uma forma de surpresa. Conforme o sonho foi ocorrendo a culpa se despedia. Até que eu acordei e ela voltou, a culpa, mas de um jeito diferente. De um jeito perdoável para mim mesmo.
Esse foi o meu ovo de Páscoa.