6.4.10

Capítulo Segundo e Meio

   Em um contraponto ao esquecimento ele surgia, mas não como lembrança ébria do ludismo que o era inerente: Era solidamente o estado em que se permanece sem erro ou fim: Uma altivez humilde e una, advinda de estar e ser, como em muitas línguas se faz de modo natural, sem permitir que se torne confusa a comunicação, mas sem também uma proibição, apenas a naturalidade como trilhos ao objetivo de falar e ser ouvido. Foi em um momento assim que ele, sentado no seu píer preferido da Lagoa Rodrigo de Freitas, próximo ao Parque dos Patins, entendeu a vastidão, e ela era de aproximadamente um segundo e meio e havia sido ele a prolongá-la a tanto utilizando sua memória em uma sucessão sem fim de repetições do estado que se esgotou quando um infinitésimo da vastidão se fez parte compositora dela, "pois a vastidão não se compõe de nada", pensou alto Saulo, quebrando o conceito puro com o racional. Naquele estado ele havia sido, sem necessidade de qualquer complementação, estando ali no píer, e o tinha feito por perceber isso. Ficou alegre da alegria que é falta de motivos e de objetivos, de racionalidade e de julgamentos, e de todas as coisas que existiam por serem opostas à outras. Olhava as bicicletas e as pessoas sobre elas, como sobre o chão também as pessoas que passavam olhava. Abrangendo com seu campo ocular tudo o que não era visível de maneira medíocre até que aquilo não era mais perceber ou sentir... era paz. As cestinhas das bicicletas azuis ou eram brancas, ou pretas ou amarelas, das vermelhas ou eram verdes, ou brancas ou pretas, todas assim, ou neutras ou complementares. Identificava-se com as cores neutras, vestia blusa branca, uma calça preta com riscas de giz e a pele que o incomodava por ser avermelhado marrom que chamavam de negro. Queria que sua pele fosse preta de verdade ou branca, como ninguém era. Mas após todo esse tempo de um segundo e meio pronunciava-se uma ressonância que estava ali em si, há muito, porém nunca recebera a devida atenção, e que o dizia não existirem o branco e o preto, e se eles que são a presença e ausência totais de cores não existem, o que são as outras cores?: - E o que é o que eu vejo se não há visão?, uma adolescente o olhou com espanto e ele desviou o olhar de vergonha por ter dito em voz alta algo tão íntimo, como se tivesse se despido sem querer em meio aos transeuntes, uma vergonha de sonho de quem esquece que vestiu as roupas, de compartilhar com os outros o que não é permitido a ninguém, e eles, que se comportavam tão bem em serem tão morais o incomodavam tanto quanto se incomodava com sua própria irresponsabilidade ao ponto de sentir vergonha.

Arquivo do blog