23.3.10
Avatares
te vi na satamini de dentro do ônibus. rosa na blusa abaixo de um semblante sério que eu desconhecia. meu ônibus estava há poucos metros do ponto em que eu desceria, parado, e você andava ao meu lado direito. eu quis descer de saudades, mas virei o rosto de medo de ser visto, de atrair a sua atenção e permaneci olhando para a frente enquanto tentava te colocar na minha visão periférica. quando desci, na esquina, lógico, olhei para trás, mas não te vi. e não te vendo imaginei que você pudesse ter entrado na ladeirinha à sua direita ou atravessado a satamini à sua esquerda para ir à escola de idiomas, onde possivelmente estaria lecionando. então apertei meu passo para tentar te ver ainda, mas não. e na porta da escola olhei para dentro, mas não. você era tão ausente quanto o silêncio que zune o seu avatar, tão silenciosa quanto o sorriso que me deu na última vez em que nos vimos. e isso por quê? dessa pergunta a única resposta que eu obtenho é a de que eu não sei dar algo com passageiro, pois para mim digo: tudo é passagem - em uma sucessão constante de inícios e fins sem um árbitro supremo, como muitos crêem. do meu lado há uma vontade que revive em um fluxo constante tudo, impedindo que algo se desfaça e modificando outros algos, sem nunca parar. isso eu garanto por ser. por isso você é viva aqui, não por falta de vergonha minha, e se há alguma do seu lado a gente resolve. é só ter vontade. me desagrada não poder te ver e conversar com você.