2.10.09

Pedido

Olha só. Você quer se livrar disso. Eu sei que te incomoda que eu queira conversar com você, só não entendo o porquê, mas o incômodo é claro. Eu também quero, Bianca.


Hoje são duas noites sem dormir, isso me preocupa e é claro que esse sentimento não passa pela sua cabeça como você insiste em dizer, se isso ocorresse você simplesmente não me ignoraria tão prontamente.

Não quero ser seu amigo, não agora. Como você diz, e eu concordo, essas coisas devem acontecer naturalmente, mas o que não está sendo nem um pouco natural pra mim é reprimir a quantidade de coisas mal resolvidas até agora. E não me venha lançar um olhar preconceituoso sobre isso, por favor. Não se trata de uma patologia, e mesmo que fosse a maneira correta de lidar com ela seria utilizar um recurso que a tornasse adequada socialmente, ou seja, um meio viável de externar os impulsos sem ferir ninguém.

Que tal conversar sem nenhum elemento que altere a percepção das coisas, como o álcool? Beber uma cerveja foi a sua proposta, não iríamos conversar de qualquer maneira? Só propus excluir o álcool. Sempre há um momento catártico na nossa conversa que depois se transmuta naturalmente no que parece(sic) ser a conversa entre dois amigos que se importam um com o outro. Por que no período em que ficamos sem nos falar essa amizade, essa preocupação de um com o outro, deve desaparecer?

Não quero que você cuide de mim, Bianca, só que eu tenho fazer isso. Não quero que você se force a conviver com a minha natureza, nem quero que você queira, só preciso de um pouco de compreensão da sua parte com as minhas necessidades. Agindo sem tentativa de compreensão alguma, como você faz com o seu pai e em muitos casos com a sua irmã, você só piora a nossa relação.

Certo. Talvez o seu objetivo seja esse. Talvez você ache que piorar as coisas fará com que você se livre disso mais rápido, então se é assim, assuma! Eu vou te achar escrota na proporção que você me acha e fim. Estaremos resolvidos e a nossa amizade surgirá futuramente ou não, de acordo com o fluxo normal das coisas.

Sei que você mente e omite para proteger as pessoas, pois fez isso para iniciar o nosso namoro. Como você acha que eu posso acreditar que você não tenha mentido pra mim? Você acha justo que a culpa toda recaia apenas sobre o meu ato de impulsividade infantil?

O Tiago passou a ser seu amigo a partir de uma conversa muito velada, pois a amizade de vocês só chegou a mim depois que vocês já haviam se encontrado algumas vezes. Será que eu estou sendo um babaca em acreditar que vocês já não se gostavam antes do fim do nosso namoro? Há uma regra de substituição na nossa psique que não sei se você conhece: A energia de uma paixão acaba se for redirecionada para outra. Dizendo isso não quero que você sinta culpa, pois compreendo perfeitamente que não há controle racional sobre as emoções, apenas a contenção que não é um remédio, mas uma doença. E você de maneira alguma conteve seus sentimentos pelo Tiago, o que me fez até me fez ficar na expectativa de que você me falasse que estava com ele, como você percebeu quando disse a mim e pode ser comprovado pela Juliana.

Se você me esconde algo a fim de me proteger deveria estar claro que não dá certo. Nunca me senti mais vulnerável quanto agora e estou tendo reflexos físicos disso. Se eu fosse a um analista falar sobre isso ele tentaria tratar uma obsessão, que é o resultado de nosso caso até o momento, ou os sintomas. O tratamento da obsessão seria visto por mim como uma aula de como engolir em seco e o dos sintomas seria abrir o caminho pra que os impulsos se multiplicassem e saíssem por outro buraco. Você sabe. Já fizeram isso com você.

Então, Bianca. Preciso de você ainda, pois isso que eu estou passando não é vida. Detesto que sintam pena de mim. Mas se esse for o único sentimento que possa te fazer considerar as minhas palavras aqui como sendo as de um ser humano e não como se fossem a sua consciência tocando uma campainha pra te avisar que lá vem a chatice, que seja. Eu quero acabar com isso, pois também não me agrada nem um pouco encher o seu saco. Tudo o que eu quero é te deixar em paz sem envolver ansiedade no processo, ou envolvendo o mínimo possível.

Nunca vamos conseguir ser amigos com mágoas pendentes, como não conseguimos ser namorados. Vamos resolver as pendências, Bianca. Eu sou uma delas por mais que ainda seja difícil pra você reconhecer. Sempre tentei lidar com as suas aflições compreendendo elas, como disse no texto que você se resumiu a perceber o approach biológico, enquanto você sempre me pareceu lidar com as minhas como se fossem meros empecilhos ao seu equilíbrio, mesmo quando me amava. Se não era assim que você lidava com elas algo deve ter saído errado, não? Suas reações nunca se pareceram com preocupação comigo, mas sempre com você. Sem exageros.

Você pode até argumentar que não me deu “trabalho” algum, só que não está dentro da minha cabeça pra fazer isso. Eu tenho uma lista de coisas que você fez e poderiam simplesmente ter sido refutadas com ignorância e egoísmo. Eu quis terminar com você e duvidei de te amar em todos os momentos em que isso aconteceu. Mas isso não ocorreu porque, após dias de reflexão, essas coisas eram vistas por mim como passíveis de resolução pelo amor que eu sentia por você e seu desdobramento em empenho, dedicação, obtenção de conhecimento, amadurecimento tanto de nossa relação quando de nossos indivíduos dentre outras coisas do tipo.

Se preferir que as conversas sejam desta maneira eu aceito, apesar de não ter o fator olhos-nos-olhos que considero essencial. Ao menos no início acho que não tem problema algum.

Estamos aprendendo a viver bem nossas vidas, portanto não faz sentido pegar uma de nossas experiências mais importantes até o momento e sair com um resultado de todo negativo dela. Vamos sair disso bem, Bianca. Talvez você já tenha saído, mas o que a gente viveu foi junto então estou pedindo pra que me dê um empurrãozinho pois tenho essas limitações que não são problemas de ética ou de responsabilidade, são traços da minha personalidade ou talvez só burrice. Preciso das coisas bem esclarecidas, só isso.



Um beijo.

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