7.5.08

À Luciana

Luciana,

Isto pode ser visto tanto como uma demonstração de fraqueza quanto de força.
Eu tenho tentado mas não tenho conseguido. Cada contato tem me custado pedaços grandes da minha estabilidade emocional e psicológica. Isso ocorre por causa do meu erro óbvio, sobre o qual já conversamos, e que me tem feito pensar muito sobre os motivos que estão me levando a transgredir conceitos éticos que sempre defendi.
Semana passada meu padrinho me ligou, dizendo pra que eu levasse urgentemente meu computador pra ele dizendo que me daria outro de imediato. O meu era pra dar pra uma sobrinha dele que não precisa de um com configurações avançadas, e em troca ele me daria o antigo dele, bem melhor. Te comuniquei isso e perdi um dia de trabalho. Na quarta de manhã dei um pulo na faculdade pra falar com a minha professora sobre as duas faltas, de segunda e terça. Ela disse: "ontem você completou quatro faltas e reprovou". Eu falei do trabalho pra ela e que não poderia ir na sexta quando o ateliê estaria aberto pra adiantamento dos trabalhos e ela falou que nada poderia fazer, que eu posso continuar o período mas isso não reverteria a reprovação.
Luciana, eu tinha planos de fazer uma transferência pra desenho industrial a partir do segundo semestre que foram frustradas por isso. Eu vim pra essa cidade fazer isso!
Enfim, a única coisa que eu poderia fazer era correr atrás do que eu ainda não havia perdido de todo que é o trabalho. Assim que cheguei, em torno das onze horas, comecei a fazer ligações e logo depois as pessoas começaram a sair pra almoçar e eu também fui, afim de acompanhar os horários deles. Lá pelas quatro e meia, só tendo conseguido fazer uma entrevista completa eu liguei pra Dani e o namorado dela estava lá. Ele disse que em dois dias, terça e quarta, havia feito seis. Eu, que havia achado durante a tarde toda que o problema era comigo fiquei um pouco tranqüilo com essa notícia. Saí pra uma seleção de emprego em Cascadura.
Na Sexta continuei, mas cada entrevista que eu não conseguia fazer me convencia de que seria impossível fazer 39 em um dia. Terminei o dia com alguns contatos pra fazer na Segunda.
Ontem, Segunda, eu voltei a ligar. Minutos depois comecei a passar mal mas continuei tentando, precisava colocar algo no estômago toda hora até que uma hora, todas essas coisas que eu havia colocado voltaram. A partir desse ponto eu não fiz mais nada.
Agora, enquanto escrevo isso, sinto os mesmo sintomas. Eu preciso me tratar, mas não tenho dinheiro pra isso.
De noite vou à Cascadura começar o treinamento. Não posso mais lidar a ansiedade dos trabalhos de início e pagamentos incertos. Não estou esquecendo a minha dívida mas realmente não tenho como pagá-la agora. Quanto a isso te peço desculpas já que o dinheiro é seu, mas o resto do texto não é uma justificativa para meus erros mas apenas um desabafo pois tenho escondido isso inclusive da minha mãe permanecendo o dia inteiro com a porta do quarto trancada. Eu te peço que o meu nome seja retirado da lista do I.C.M. e te pagarei com o meu primeiro salário. Sei que isso pode trazer problemas na sua administração, mas acho que deu pra entender que eu tentei. A dívida pode ser transferida pra minha conta telefônica também, se você quiser.

Obrigado pela atenção e pela oportunidade.

Este texto foi escrito em seis de Maio e enviado no dia sete, pela manhã.

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