A expressão "sem graça" ressôa na minha memória.
Ontem tivemos um ótimo dia. Conversamos aleatóriamente, bem do jeito que gosto. Do jeito que me impede de compartilhar qualquer coisa desagradável (eu realmente não esperava ter um dia tão bom ao seu lado, tanto que retirei o depoimento). Uma das primeiras coisas que eu te disse foi sobre o acidente do meu pai, exatamente pra te preparar caso eu me tornasse uma pessoa chata durante o dia, prometí pra mim mesmo não ser o máximo que pudesse, estava disposto a fingir estar bem, e meus amigos (os de verdade) sabem que isso não é meu normal. Nunca havia ficado tão feliz em ter bolhas nos pés e escoriações nas coxas, graças ao roçar da costura da bermuda. Vimos um bom filme que até me serviu de influência (pelo seu comentário hoje, parece ter servido pra você também). A única paranóia do dia foi com o gosto amargo na boca que me fez acreditar que eu estava com mal hálito, mas você também estava e durante os beijos o ar não escapava para as narinas. Eu como uma pessoa consciente de meu suor não tentei te agarrar na despedida pois acharia desagradável o contrário.
Hoje o dia foi diferente.
Os filmes foram bons e talvez por eu os tenha encaixado no dia de ontem,
Pois não quis me desapegar do dia perfeito...
O telefonema, a forma como você recebeu o que eu disse foi o ápice,
Talvez por isso eu tenha encaixado em ontem também.
Desci as escadas na frente, ancioso como o idiota adolescente que apanhava sem reagir na escolinha.
Sentei.
Me aproximei...
(Havia comprado balas porque ficar muito tempo de boca fechada vendo filme dá aquela coisa que eu já disse)
pfff...
que ridículo.
pra quem eu estou escrevendo isso?
estou usando até letras maiúsculas...
parênteses explicativos...
cigarro.
o fato é que me recolhí após ter alguns comentários cortados.
o Nelsinho só se direcionava a mim pra tratar de assuntos tabagistas.
Havia um bom relacionamento de número ímpar entre vocês em cujos assuntos eu considerava desinteressantes.
vocês deviam pensar: pra que dar atenção a uma pessoa sem graça?
resolví inventar um mundo e comecei a me dar aulas de composição de fachadas,
os prédios eram muito interessantes e me perdí neles,
na escada eu tinha rococós e frontões na mente. estava chapado de arquitetura e comecei a riscar papel.
até que a paulista apareceu.
algum comentário me pegou, eu retribuí e voltei pra a paulista.
quis remontá-la.
como ela seria pra mim naquele momento?
e esbocei, fiz um contorno grosso, dei volume, o Tahian chegou com o papinho exclusivista dele, tentei ignorar sendo educado, perguntou se eu conheço a Nina umas três vezes, coisa ridícula a não ser que ele tenha problemas de memória muitos sérios...
não queria que me vissem desenhando, exatamente como o fazia na puberdade,
estava revivendo isso.
voltei a um mundinho que há muito não experimentava,
às vezes me vinham lapsos do pé do meu pai estraçalhado mas eu me desviava do presente,
até o nome do primeiro filme do dia, que eu adorei, não lembro até agora.
depois fomos pra esquina dos arcos.
cada vez que o Nelson se ausentava era um bom momento pra alguém tentar se aproximar de mim,
a impressão que me deu é que era por obrigação, mas preferí não comentar pra não ser rude,
os grafites eram mais interessantes do que o meu estado e foi a vez deles brincarem de deus comigo,
pensei na linha, na Fayga Ostrower, no Mondrian, no Kandinski e no Schiele.
já estava doido pra desenhar, mas resolví não fazer isso pra não parecer mais anti-social do que já estava sendo.
sentamos no meio fio.
a ordem era a seguinte:
Hérika, Nelson, eu e você.
você se levantou pra falar com uns hippies e os dois iniciaram um assunto entre sí.
quando você voltou, com um hippie "interessantíssimo" a tira-colo e começou a mostrar os seu desenhos pra ele,
achei que não deveria tirar a prancheta da mochila enquanto isso não passasse,
não queria compartilhar os meus desenhos com ninguém,
eu estava em torno da sétima série e a curiosidade dos terceiros só serve pra quebrar o raciocínio
então você guardou o caderno, eu puxei a prancheta, apontei o lápis e voltei a desenhar.
o papo com o hippie foi demorado,
passou o possível meganha em busca de um "frága",
passaram assuntos Hérika/Nelson,
passaram pessoas que me serviram de modelo,
passou a tentativa de beijo do hippie sem dente:
hippie sem dente: hei, por que você saiu de perto de mim? por que foi embora?
pessoa sem graça: porque você fez com que ela fosse. gente, vamos sair daqui?
coro: o que houve? o fábio tá estressado? o que que aconteceu?
você: nada.
precisávamos do brian may fazendo um solo no fundo dessa bohemian rhapsody.
no fim das contas. todos saíram com seus amigos e voltaram felizes pra casa.
"Ontem tivemos um ótimo dia. Conversamos aleatóriamente, bem do jeito que gosto."
agora vejo que fui uma pessoa sem graça desde o início.