são tantos os nojos:
de animais,
de palavras,
de torneiras,
de chaves,
de argila,
de toque,
de apego,
de paixão,
de pessoas...
e outros que não fiz questão de conhecer.
sei que todos esses nojos se juntam e concretizam uma espécie de áura em volta de ti, um tipo de campo magnético. um campo magnético de repulsa com o qual você empurra algumas coisas e pessoas que tentam se aproximar de você. esses nojos, essa áura, esse campo, são a sua anima e é dela que vêm a sua expressão facial, marcada por desinteresse, a corporal, esquiva, a sua voz amolecida pelas vogais...
essa merece um pouco mais de atenção:
é uma voz mole como catarro que parece escorrer pela sua boca e narinas ao invés de ser emitida como um som comum. por vezes esse catarro surge empelotado, na tentativa de transferir alguma idéia sólida, talvez de ouro, diamante ou pérola mas a viscosidade é tamanha que acaba com qualquer tentativa de identificação por seres que não possuem natureza semelhante a tua.
você gosta de plantas e tracei um paralelo nesse ponto. não estou generalizando, falo sobre o seu caso especificamente:
o seu desdém pela antenção que algumas pessoas te dão deve vir da semelhança óbvia que elas possuem com os outros animais, lembrando, dos quais você sente nojo, porque cagam, mijam, fodem, comem... coisas das quais você só não tem nojo in toto porque, de maneira incompreensível, você faz também! é como se as pessoas só fossem boas quando inanimadas, prontas para serem decompostas e recicladas - daí vem a sua sêde de reciclagem. você é o fungo que se alimenta do que não presta mais para nada a não ser virar outra coisa. aí, você vai no lixão, cata o espelho quebrado do banheiro, quer pegar o bagulho que não serve mais para a loja... procura tudo o que possa ser reciclado, na sociedade, nos grupelhos políticos, enfim, nas pessoas - nas emoções das pessoas. é admirável a virtuosidade com a qual você executa essa função que me parece ser a primária para você, como num software.
assim você me libertou de uma prisão cômoda para me soltar num lugar onde eu não havia pisado antes, ou melhor, onde sequer se pisa! por isso levei um tempo para aprender a me locomover bem. nesse processo você acabou me despindo de preconceitos que ainda me embarreiravam sem que eu soubesse. eu estava inerte e, na tentativa de me decompor, você arrancou esses pedaços revelando as minhas vísceras. a única barreira que ainda parece me restar, e da qual tenho feito questão, é o nojo que sinto do seu nojo.